Há algum tempo, escrevi um texto sobre o trauma que toda mulher tem em relação às imposições que a sociedade coloca sobre sua aparência. Conhecemos o
depoimento de muitas mulheres e, sentindo-me inspirada por elas, nada mais
justo do que contribuir para a causa também com o meu. Por isso, hoje eu venho
aqui para falar do meu trauma pessoal.
Eu cresci vendo minha mãe e minha irmã se depilarem constantemente e
sabia que aquele também seria meu destino. Até porque eu posso dizer que sou
sim bastante peluda: além dos pelos que toda e qualquer mulher tem, tenho
muitos extras nos braços, nas mãos, nos dedos, nas costas e principalmente no
rosto. Meu maior trauma provavelmente se concentra ali: no buço, envolta dos
lábios, no queixo e na face. Em outras palavras, eu tenho uma quantidade de
pelos muito maior do que muitos homens por aí.
Assim, comecei a me depilar aos 11 anos da idade.
Eu via outras garotas com rostos lisinhos e sempre me sentia suja,
relaxada e feia. Ainda me sinto, em muitos momentos. Lembro-me que antes de
começar a depilar o rosto por conta própria – com cera quente, devo frisar – eu
ansiava desesperadamente por um dia em que minha mãe pudesse tirar os pelos
para mim. Depois que eu passei a tirará-los sozinha, fazia questão de me
depilar toda semana – aliás, ainda o faço – assim como uma vez por mês eu encho
a minha cara de químicos para deixar os pelos negros das bochechas louros.
Porque ainda não me é fácil olhar para o espelho e ver aquele “bigode de
chinês”, como diziam alguns; ou o queixo “barbado” e as bochechas cobertas de
cabelos que contrastavam completamente com a cor da minha pele. Eu não sei se
as pessoas reparam em mim, mas sei que eu reparo nelas. Reparo porque
praticamente fui ensinada a pensar assim e não tenho nenhum orgulho disso. Tenho
dificuldades de me desapegar desses hábitos e dificilmente me livrarei de
muitos deles.
O que me salvou de grande parte da pressão de estar depilada foi a minha
maior aproximação com o feminismo. Vi diversas mulheres exibirem seus pelos
livre e orgulhosamente, assim como mulheres que mesmo se depilando apoiavam a
causa de mulheres que não queriam aderir à prática. E depois de uma experiência
traumática recente, envolvendo bochechas, cera quente, muita dor e uma série de
ardências provocadas pelo calor e por lágrimas, eu simplesmente decidi que não
poderia mais me deixar vencer por aquela pressão.
A partir daquele dia, passei a fugir dos padrões. Passei me importar
menos quando os pelos do meu rosto (normalmente dois dias antes de eu tirá-los
com cera) ou das pernas estão um pouco maiores e venho conseguindo manter as
axilas perfeitamente peludas sem sentir qualquer incômodo. Muito pelo
contrário: quando eu tenho que tirá-los - pois ainda não cheguei ao estágio de
sair de casa expondo toda a cabeleira – eu honestamente sinto falta deles. Alcançadas
estas pequenas conquistas, porém de enorme significado, o próximo passo é me
livrar do “pudor” social que existe em relação à depilação.
Hoje me sinto muito mais livre, muito mais mulher, simplesmente pelo
fato de poder ser eu mesma. O que define uma mulher não é um padrão, mas sim o
direito de ela poder ser dona de seu próprio corpo e escrever sua própria
história. Nosso corpo, nossas regras. Nossa vida, nossa história.
Aposto que muita gente vai ler e pensar "que nojo" ou "quanto descuido". É terrível pensar que o 'senso comum' ainda se acha importante o bastante para ter o direito de interferir, não só nas nossas ideias como ~absurdamente~ no nosso bem mais precioso: nosso corpo.
ResponderExcluirCorajosas são as mulheres que batem o pé e dizem 'não' para as regras impostas e 'sim' para o bem-estar próprio. Parabéns amiga, continue sempre buscando aquilo que faz bem a VOCÊ, independentemente da vontade alheia.